Os Clamores do Salmista
Texto Base: Salmos (Diversos)
Introdução
O livro de Salmos é o hinário e o livro de orações da Bíblia. Nele, encontramos a alma humana nua diante de Deus. Uma das características mais marcantes desta obra é a frequência com que encontramos o "clamor" ou o "choro".
Às vezes, esse clamor refere-se a um "gritar" por socorro (um brado de urgência); outras vezes, é uma reação emocional profunda — lágrimas que correm no segredo do quarto. Seja qual for a forma, sempre que o Salmista clama, há uma lição preciosa para nós. O choro bíblico não é sinal de falta de fé, mas de uma fé que sabe para onde olhar quando o coração transborda.
I. Clamando na Doença, na Dor e no Sofrimento
A vida física é frágil, e o Salmista não esconde sua vulnerabilidade diante da enfermidade.
A. Da angústia à confiança (Salmo 6)
No Salmo 6, vemos um homem exausto. Seus ossos estão perturbados e sua alma está profundamente aflita. Contudo, o Salmo termina com uma nota de triunfo: "O Senhor ouviu a minha súplica; o Senhor aceitará a minha oração". A dor o levou ao clamor, e o clamor o levou à paz.
B. O clamor na escuridão total (Salmo 88)
Este é talvez o Salmo mais triste da Bíblia. O autor sente a morte próxima (vv. 1-5), sente-se isolado como em uma quarentena (v. 8) e abandonado por amigos e familiares (v. 18). O Salmo 88 nos ensina que, mesmo quando não há uma solução imediata ou um final feliz no último verso, o simples ato de clamar a Deus dia e noite é um ato de fé.
C. A gratidão pela restauração (Salmo 30)
Aqui o tom muda. O Salmista clama e Deus o sara (v. 2). Ele aprendeu que o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã. Sua tristeza foi transformada em dança (v. 11).
• Aplicação: Em nossas dificuldades, devemos clamar (Tg 5:14). Quando abençoados, devemos agradecer, lembrando que até heróis da fé como Epafrodito enfrentaram doenças graves, mas foram sustentados pela misericórdia de Deus (Fp 2:27).
II. Clamando sob a Perseguição dos Ímpios
O Salmista frequentemente se viu cercado por inimigos que desejavam sua queda.
A. Deus como Rocha e Refúgio (Salmo 18 e 56)
Davi escreveu o Salmo 18 quando Deus o livrou de Saul. Ele clama no seu aperto e Deus, do Seu templo, ouve a sua voz. Já no Salmo 56, escrito em meio ao perigo, Davi declara sua confiança inabalável: "Em Deus ponho a minha confiança e não temerei; que me pode fazer o homem?" (v. 11).
B. O sentimento de abandono (Salmo 142)
Escondido em uma caverna, Davi clama: "Olhei para a minha direita, e vi; mas não havia quem me conhecesse. Refúgio me faltou; ninguém cuidou da minha alma". O clamor aqui é o desabafo de quem se sente sozinho no mundo, encontrando em Deus o único "quinhão na terra dos viventes".
C. Do cativeiro para a alegria (Salmo 126)
Este Salmo relembra o retorno do exílio. Aqueles que "semeiam com lágrimas" voltarão com alegria, trazendo seus feixes. O choro da perseguição e do cativeiro é a semente de uma colheita de júbilo futuro.
• Aplicação: Deus nota cada perseguição que sofremos. Se Ele cuida dos pardais, Ele certamente ouve o clamor de Seus filhos sob pressão (Lc 12:6-7).
III. Clamando pelo Pecado e pelo Perdão
Nem todos os clamores são causados por agentes externos; alguns vêm de dentro, do peso da própria consciência.
A. O desejo de santidade (Salmo 39)
O Salmista resolveu vigiar seus caminhos para não pecar com a língua (v. 1). Ao sentir o peso da correção de Deus, ele clama: "Livra-me de todas as minhas transgressões". É o choro de quem entende a brevidade da vida e a necessidade de estar em paz com o Criador.
B. Das profundezas da culpa (Salmo 130)
"Das profundezas a ti clamo, ó Senhor". Este Salmo reconhece que, se o Senhor observasse as iniquidades, ninguém subsistiria. Mas o clamor é respondido com a esperança: "Mas contigo está o perdão".
• Aplicação: Hoje, devemos clamar pelo nosso pecado através do arrependimento bíblico. Como Paulo ensina, a "tristeza segundo Deus" opera um arrependimento que conduz à salvação (2 Co 7:8-10).
IV. Clamando pelo Desejo de Adorar
Por fim, há o clamor da saudade de Deus.
A. A sede pela presença (Salmo 42)
Como a corça anseia pelas correntes das águas, a alma do Salmista clama por Deus. Ele se lembra de quando ia com a multidão à Casa de Deus e anseia voltar a esse estado de comunhão.
B. A bem-aventurança da adoração (Salmo 84)
"A minha alma suspira, e desfalece pelos átrios do Senhor; o meu coração e a minha carne clamam pelo Deus vivo". Para o Salmista, um dia nos átrios de Deus vale mais do que mil em qualquer outro lugar.
• Aplicação: Nossa adoração hoje deve ser em espírito e em verdade (Jo 4:23-24). Devemos clamar por mais oportunidades de estar juntos como corpo de Cristo, nunca abandonando nossa congregação (Hb 10:25).
Veja também
- Por que Devemos Orar pelos Outros? 1 Tessalonicenses 5:25
- Como ter Determinação na Vida Cristã
- Como Rejeitar o Erro e Obedecer à Verdade 1 João 4:1-6
Conclusão
O choro nem sempre é sinal de derrota. Às vezes, clamar é o curso de ação mais espiritual que podemos tomar. Através dos Salmos, aprendemos que podemos clamar na dor, na perseguição, no arrependimento e na adoração.
Deus não é indiferente às suas lágrimas. Ele as recolhe em Seu odre. Que possamos aprender com o Salmista a derramar o coração diante dAquele que não apenas ouve o nosso clamor, mas tem o poder de responder.
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